Duzentos anos da Argentina vistos pelo andar de baixo

A historiografia tradicional construiu vários mitos ao redor do processo da independência da Argentina. É uma narrativa repleta de silêncios e lacunas. Nos conflitos internos e externos, os negros, os índios, mestiços e mulatos sempre foram bucha de canhão. Em 1810, por exemplo, havia uma paridade entre homens e mulheres negras na Argentina. Em 1822, os homens negros adultos tinham desaparecido. No primeiro censo moderno da República Argentina, em 1868, os africanos e seus descendentes representavam apenas 9% da população total de Buenos Aires. Após a primeira epidemia de febre amarela, no censo de 1887, restaram só 1,8%. O artigo é de Carlos Abel Suárez.

Recordando Dora Coledesky e Ángel Fanjul

“Quando cheguei a Córdoba, o general San Martin estava numa estância, a quatro léguas da cidade, sempre se dizendo enfermo. Estive a visitá-lo com outras pessoas, ele nos recebeu muito bem e conversou largamente sobre nossa revolução. Entre outras coisas, disse: 'Esta revolução não parece de homens, mas de carneiros”; para prová-lo, lembrou que nesse mesmo dia tinha vindo um dos peões da fazenda queixar-se de que o mordomo, que era espanhol, havia lhe dado pancadas por faltas que tinha cometido no serviço. Com isso, exclamou: 'que parece a vocês, depois de três anos de revolução, um maturrango se atreve a levantar a mão contra um americano! Esta é – repetiu – uma revolução de carneiros”!
 

Memórias do General José María Paz

Na América se está celebrando os 200 anos da Independência da Espanha. Para o que hoje chamamos de República Argentina se trata da Revolução de Maio. Exatamente em 25 de maio de 1810 começou o longo e tumultuado processo de uma organização política autônoma da coroa espanhola. Estão programados atos, discursos, inaugurações, notas nos jornais, ensaios e um mercado de produtos comemorativos.

A próspera Argentina do Centenário já conheceu estas pompas em maio de 1910. A Princesa Isabel de Bourbon e sobrinha de Alfonso XIII, conhecida também como “a Chata”, ou Georges Clemenceau, entre as numerosas personalidades convidadas, desfilaram por Buenos Aires, uma das cidades do mundo que valia à pena visitar naqueles dias de abundância, ao menos para alguns.

As bandeirolas e o espumante não foram compartilhados por todos. Os anarquistas tinha convocado uma greve geral em protesto contra a brutal e sistemática repressão desencadeada um ano, desde a manifestação do 1° de Maio de 1909. Nas vésperas do Centenário, o Congresso decretou o estado de sítio, em 13 de maio. A medida não deteve os “grupelhos” dos senhorios ultranacionalistas que assaltaram, destruíram e incendiaram as gráficas de La Vanguardia e La Protesta, os jornais socialista e anarquista. Essas gangues foram protegidas pelo chefe de Polícia, o então coronel Dellepiane que, já como general com maior experiência, dirigiu mais tarde a repressão na chamada Semana Trágica de 1919. Retornando às crônicas dos atos não previstos no protocolo do Centenário, a política chegava aos locais quando as chamas já haviam feito seu trabalho, e contam que, quando entraram no local que antes fora a gráfica do La Vanguardia, encontraram seu diretor, Juan B. Justo, que detiveram para averiguação de antecedentes criminais.

Esses “grupelhos”, que ao longo da história argentina tomaram outros nomes – Liga Patriótica, Alianza Nacionalista, CNU ou Triple A, etc – não se limitaram a atacar às imprensas socialistas ou anarquistas. Aos gritos de “Viva a Pátria, viva a Polícia”, assaltaram e incendiaram o circo popular de Frank Brown, o palhaço da cidade, atacando com particular sanha os judeus e os centros culturais de outros imigrantes (que nesses dias superavam 40% dos habitantes da cidade de Buenos Aires) e várias escolas identificadas com o laicismo. Em 27 de maio de 1910, como chave de ouro dos festejos pátrios, o Congresso votou a Lei de Defesa Social, que ampliava e aprofundava a bestial Lei de Residência, a 4144, pela qual se podia expulsar do país qualquer estrangeiro que perturbasse a segurança nacional ou a ordem pública. Esta lei racista esteve em vigor durante grande parte do século XX. Foi derrogada há pouco, por Arturo Frondizi, em julho de 1958, em parte porque já havia instrumentos repressivos mais eficientes, como a Commoción Interior ou o Plano Conintes, que foram maciçamente aplicados.

Mas voltemos ao princípio. A historiografia tradicional construiu vários mitos ao redor do processo da independência. Necessários, por certo, para maquiar as origens das classes dominantes, que além de algumas poucas baixas, manteve sua hegemonia durante esses 200 anos. Classe dominante com instantes fugazes de assumir o papel de uma classe dirigente. De todo modo, seus fantasmas se podem encontrar nos homens das ruas, especialmente nas da cidade de Buenos Aires.

A propósito do Bicentenário se reciclam velhas polêmicas e se instalam outras, porque, como advertia o grande historiador britânico Edward H. Carr: 
“a história é um diálogo sem fim entre o presente e o passado”. De modo que a revolução de Maio e a Independência podem nos dar algumas pistas de como chegamos até aqui. Porque, embora com todas as desventuras e desigualdades galopantes das últimas décadas, o que se tornou a República Argentina ainda figura no pelotão que encabeça o índice de Desenvolvimento Humano da ONU.

Historiadores de todas as correntes corroboram, com bons argumentos, o processo que começou no Vice-reinado do Rio da Prata em maio de 1810, com o antecedente da reconquista das invasões inglesas, em 1806 e 1807, como parte do mesmo fenômeno independentista que tomou conta de toda a América Hispânica nesses mesmos anos. Sem embargo, foram as particularidades que determinaram o rumo definitivo de cada região e de cada país, inclusive do Brasil, na geopolítica do capitalismo do século XIX (Ver entrevista com Tulio Halperín Donghi).

Ainda restam cinzas dos debates apaixonados sobre o caráter da revolução independentista. Na tradição da esquerda, muitos foram os que buscaram adaptar os conhecimentos e os atores aos esquemas de um marxismo simplificado, quando não tergiversado. Havia de se demonstrar o caráter “democrático-burguês” da Revolução de Maio. Assim, batizou-se como “jacobino” a Mariano Moreno, José Castelli e Bernardo Monteagudo, entre outros, não pelas relações sociais e pelas idéias que expressavam, mas pela necessidade de uma história de acordo com esse esquema supostamente clássico, sem importar a sincronia dos acontecimentos.

No caso de Robespierre praticaram sem recato a falsificação histórica que o qualificou como o sanguinário da Revolução Francesa, uma espécie de terrorista de Estado (1). E nessa comparação se catalogou a Moreno e a Castelli, por não terem hesitado em exercer a violência e os fuzilamentos contra seus adversários. Com efeito, essa leitura de segunda ou terceira mão da Revolução Francesa levou algumas autores, como hoje a seus seguidores, a ficarem com a idéia de que a Revolução Francesa nada mais foi do que uma clássica “revolução burguesa”. E aqui se dividem as opiniões, entre quem afirma o caráter “democrático-burguês” do 25 de Maio, dado o seu caráter popular, buscando os sans-culottes crioulos e aqueles que rechaçam essa idéia, que sustentam que não havia burguesia local capaz de assumir essas tarefas. As duas versões, porém, coincidem na ignorância de que o ódio que Robespierre despertou, a demolição e demonização de seu papel, enfim, pelo que perdeu sua cabeça na guilhotinha, deveu-se à defesa sustentada por ele da abolição da escravatura nas colônias; e o programa dos jacobinos que representava a plebe, o povo simples.

“De todos os direitos, o primeiro é o de existir. Para tanto, a primeira lei social é aquela que garantiria a todos os membros da sociedade os meios para existir. Todas as demais leis estão subordinadas a esta lei social” (2), é por causa da defesa dessas idéias que Robespierre foi difamado.

Por sua parte, Moreno, advogado de Martin de Álzaga, o principal traficante de escravos do Rio da Prata, foi o autor da “Representação dos fazendeiros”, ou seja, um militante consequente e tenaz do livre comércio, de pôr o fim no monopólio comercial que atava Buenos Aires ao Reino de Espanha. Moreno, ademais, segundo Vicente Fidel López, era um “católico exagerado, que chegava à devoção de passar semanas em exercícios espirituais, dando chicotadas em si mesmo”. Há que forçar em demasia para encaixá-lo no retrato dos jacobinos.

Contudo, a geração da Independência – Moreno, Castelli, Belgrano, San Martin e outros – sequer chegaram a se pronunciar pela República e defendiam o livre comércio. Em consequência, mantiveram a bússola orientada para Londres, a meca da avassaladora Revolução Industrial. Essas coisas não merecem interesse histórico e político para os acontecimentos [e a historicidade] da Independência e de seus protagonistas.

Foi o peruano José Carlos Mariátegui que qualificou, já na metade do século XX, como “falsa república” ao Peru, que se tinha constituído sob as classes dominantes, deixando ao lado os povos originários. O conceito podia ser aplicado a outras partes da América Latina.

Em que, porém, o caso argentino é igual? A literatura sobre as diferenças de civilizações que a colonização espanhola encontrou no Peru e no México, dos territórios quase despovoados e do que mais tarde foi o Vice-Reinado do Rio da Prata abunda.

Foi uma necessidade especificamente geopolítica que impulsionou a idéia de instalar uma burocracia colonial em Buenos Aires: o Vice-Reinado. Não foram os recursos naturais e a existência de civilizações e cidades com grande densidade de população, que os colonizadores se encarregaram rapidamente de explorar e integrar às correntes comerciais do capitalismo em desenvolvimento. No caso das Províncias Unidas do Sul não é tão evidente a correspondência de seu desenvolvimento econômico, político e social com a tese de falsas repúblicas, de Mariátegui. Falta investigar, explorar sob a superfície dos sucessos e do movimento social. Para isso é fundamental recorrer a importantes contribuições acadêmicas de Halperin Donghi, Sergio Bagú, Aldo Ferrer, Alberto J. Pla, José Luis Romero e outros que, sem ser acadêmicos, deram boas pistas para não nos perdermos nos jardins mortos dos velhos e novos pós-modernos.

Os negros no Rio da Prata
“Ninguém luta por uma multidão, nem se abandona a uma choradeira fúnebre perante a lápide de uma abstração”
Mike Davis

O cirurgião Juan Caytenao Molina, um dos precursores do sanitarismo no Rio da Prata, liderou uma das primeiras batalhas entre a saúde pública e os interesses privados. Martín de Álzaga, como já dissemos, homem de poder político e econômico e traficante de escravos, recebia em Montevidéu seu barco, El Joaquín, com um carregamento de negros procedentes de Moçambique. Molina, que estava a cargo de uma junta sanitária que devia inspecionar os navios negreiros no porto de Montevidéu, diagnosticou um surto de varíola que tinha provocado numerosas mortes no El Joaquín durante a travessia, pondo a embarcação em quarentena. Aquelas alturas, a varíola tinha provocado estragos, especialmente entre os negros que chegavam debilitados e com imunidade baixa – pela ausência de enfermidades no meio natural onde foram caçados e embarcados. Álzaga rechaçou a quarentena e manobrou judicialmente, usando seu poder econômico e sua influência política para pôr em dúvida a competência científica de Molina. O sanitarista aproveitou a oportunidade para replicar, embora tenha perdido sua causa, e pôde qualificar de execrável o tráfico negreiro, recordando, ademais, que a varíola tinha provocado a morte de quase 2000 pessoas (principalmente escravos) em 1793, em Buenos Aires.

“Com os progressos da produção capitalista durante o período manufatureiro, a opinião pública da Europa perdeu os últimos vestígios de pudor e consciência que ainda lhe restavam”, disse bem Karl Marx, no capítulo XXIV (Sobre a Acumulação Originária) de O Capital.

Marx acrescenta que: “Em 1730, Liverpool dedicava 15 barcos ao comércio de escravos; em 1751 já eram 53; em 1760, 64; em 1770, 96; em 1792, 132 (...). Enquanto implantava a escravidão infantil na Inglaterra, a indústria algodoeira servia de incentivo para converter o regime mais ou menos patriarcal de escravidão dos EUA num sistema comercial de exploração. Em geral, a escravidão escondida dos trabalhadores assalariados na Europa exigia, como pedestal, a escravidão sans phrase no Novo Mundo” (3).

Até 1739 a Real Companhia da Inglaterra, com quase cinquenta súditos britânicos trabalhando na sucursal de Buenos Aires, tinha a quase exclusividade do negócio negreiro no Rio da Prata. Isso é a mostra evidente dos vínculos comerciais muito consolidados com a Inglaterra, ainda antes da constituição do Vice-reinado, em 1776.

Os milhares de negros que ingressam por Buenos Aires, em sua maioria não ficam na região. Era vendidos e trasladados para trabalhar na exploração das minas no Peru, via Chile. Ainda não havia como fazer com que o capital se reproduzisse na planície pampeana.

Embora se calculasse que o tempo médio de vida de um escravo fosse de 7 anos, desde que chegava a seu destino (o qual requeria a fortaleza sobrehumana de suportar o cativeiro na viagem), nem todas as relações entre os proprietários e escravos eram brutais. Também houve as relações de tipo patriarcal. Por exemplo: os padres Agostinianos possuíam em Mendoza uma das maiores bodegas da região, onde escravos negros e índios trabalharam durante muito tempo fabricando vasilhames onde se transportava o vinho para outras regiões. Segundo testemunhos, com os anos se formaram em artesões habilidosos e conseguiram, antes de 1810, condições de trabalho um pouco mais leves que as de uma linha de montagem numa fábrica fordista. Sem falar das atuais fábricas no setor informal de nossas economias.

Os dados sobre o número de escravos negros que ingressarem pelo Rio da Prata não são precisos; para alguns pesquisadores, desde a chegada dos espanhóis até 1813, somando os que foram registrados e os contrabandeados, esse número havia superado a casa dos 2 milhões. Tampouco estão documentados todos os fatos que determinaram a diminuição da proporção de negros existentes no começo do século XIX, em relação com a população local, com a de cem anos depois.

A pesquisadora Marta Goldberg, precursora no estudo do tráfico negreiro no Rio da Prata, estima que a população negra constituía 18% do total, em 1774. Passou a 25% em 1778 e a 30% em 1807. Em 1810, durante a independência, uma terça parte da população era escrava, e em Córdoba, durante esses anos, a metade era mulata (4). Há dados que nos dão um indício do porquê que essa relação não se manteve na composição da população argentina: enquanto que em 1810 havia uma paridade entre homens e mulheres negras, em 1822 os homens negros adultos haviam desaparecido. No primeiro censo moderno da República Argentina, em 1868, os africanos e seus descendentes representavam apenas 9% da população total de Buenos Aires, e depois da primeira epidemia de febre amarela, no censo de 1887, restaram só 1,8%.

A leva da guerra de Independência, das guerras civis e da guerra contra o Paraguai, mais as pestes tinham feito seu trabalho.

San Martin, em Mendoza, formou toda a infantaria do Exército dos Andes com negros, pardos e mulatos, quase todos escravos, que o Estado comprou a seus proprietários, com bônus que dificilmente foram cancelados.

Nos conflitos internos e externos, os negros, os índios, mestiços e mulatos sempre foram bucha de canhão, no período colonial e posteriormente, nas guerras independentistas e civis. À frente dessas levas, onde se prometia liberdade ou melhores de vida esteve o conquistador Pedro de Cevallos. Para quem lida com esse conceito tão ambíguo, o “populismo”, este seria um dos primeiros populistas destas terras. Em 1777 Ceballos desajolou os portugueses da estratégica cidade da costa oriental do Rio da Prata, Colônia de Sacramento, com tropas formadas por escravos negros e pardos. Prometeu-lhes a liberdade depois da vitória, claro. Uma promessa que não cumpriu. Aplicou a mesma metodologia na ocupação para a coroa espanhola de Santa Catarina, no Brasil. Outro especialista nessas lidas foi o “herói” da Reconquista, e depois vice-rei, Santiago de Liniers, mais tarde fuzilado por Castelli sob a acusação de conspirar contra o primeiro governo pátrio. Liniers, segundo a crônica, era muito popular entre os negros, em que pese ter sido um dos negociantes com autorização da Espanha para comercializar escravos.

Durante muitos anos os manuais escolares argentinos ensinaram que a Assembléia do ano XIII tinha posto fim à escravidão. Mais tarde soubemos que, na realidade, os representantes de algumas das províncias tinham decretado o ventre livre e suprimido o tráfico de escravos. Isso significava que o filho de uma escrava deixava de ser propriedade do amo apenas quando chegasse à maioridade, não antes.

Essas medidas chegaram com dois anos de atraso, pois nos territórios espanhóis, já em abril de 1811, se havia proibido o tráfico de escravos, quer dizer, não se autorizava mais a lucrativa atividade dos navios negreiros. Mesmo assim, as Cortes de Cádiz, em maio de 1812, estabeleceram “que todo escravo era livre só pelo direito de pisar em território espanhol”.

Esse critério também foi adotado aqui em Buenos Aires pela Assembléia do ano XIII. Ainda assim se seguiu comprando e vendendo seres humanos ao menos até logo após a entrada em vigor da Constituição de 1853. Nas sucessões e declarações de bens figuravam os escravos como parte dos direitos de propriedade. Também houve formas refinadas de escravidão. Por exemplo, Rosas, que tinha escravo negros em suas fazendas, trouxe agricultores galegos, que só se tornavam livres quando tinha pago com trabalho os gastos de seu traslado e subsistência.

Nos necrológios pode se encontrar pérolas como esta:

“Félix Urioste de la Campa, nascido em Santurce, senhorio de Vizcaya, Espanha, passou pelo Rio da Prata, radicando-se na cidade de Buenos Aires; um importante fazendeiro dos Arrecifes, membro do diretório do banco da Província e do Banco Nacional, membro da primeira sociedade mineira, delegado provincial para a negociação da célebre empresa da Casa Baring Brothers, faleceu assassinado “desgraçadamente” em 27 de maio de 1835, quando pegou de surpresa no campo cinco de seus escravos carneando uma cabeça de gado, sem autorização. Levados a juízo, o Juiz de Paz de Arrecifes ordenou que os acusados fossem executados".

Em todo caso, desde a Assembléia do ano XII não houve registro do ingresso de novos contingentes de escravos africanos. Ao contrário, o tráfico seguiu sendo próspero nas colônias portuguesas. De acordo com alguns estudos, só no mercado do Rio de Janeiro se havia arrematado um milhão de escravos negros entre 1800 e 1850

Dos que viviam aqui desde tempos remotos

Em relação aos índios, a Assembléia, na seção de 12 de março de 1813 declarou extintos os tributos, a mita, as encomiendas, o yaconazgo e o serviço pessoal. Já na metade do século XVIII essas figuras da encomienda já haviam desaparecido, e as “missões” terminaram com a expulsão dos jesuítas.

Quando José Castelli chegou a Chuquisaca em 1811, editou uma proclama em castelhano e em quéchua, onde eliminava o mayorazgo e os tributos. Essa era uma forma de pôr os índios a favor da Junta de Buenos Aires. Os espanhóis, porém, também usaram a mesma política, instrumentalizando uma resolução do Conselho de Regência que beneficiava os índios. Como sempre, palavras não honradas.

Mesmo assim, a Assembléia do ano XIII reconheceu aos índios “como homens perfeitamente livres, em igualdade de direitos com todos os demais cidadãos”.

Entre seus atos soberanos, a Assembléia resolveu cunhar novas moedas de ouro e prata, abandonando os símbolos do antigo regime das moedas anteriores, para substituí-los pela pica e pelo gorro frígio. Segundo as crônicas da época, no ato realizado para celebrar o terceiro aniversário da Revolução de Maio, em consonância com o ambiente republicano que campeava na Assembléia, aparecem as autoridades da cidade de Buenos Aires e os cidadãos e mesmo algumas mulheres, com uma “boina vermelha”, no lugar de seus tradicionais sombreiros. O republicanismo havia entrado na moda, mas não convencia então a todas as cabeças.

Assim como no México e no Peru, os colonizadores desses territórios chegaram exterminando os povos originários que não puderam submeter. O grau de desenvolvimento econômico e a geografia operaram para que os conquistadores ficassem com as áreas litorâneas, até descobrirem as possibilidades a terra lhes oferecia. Mas isto aconteceu algum tempo depois; nesse período as tribos sobreviventes já haviam aprendido a utilidade do cavalo para defender seus próprios territórios. Os colonizadores, que não eram apenas burocratas ou comerciantes-contrabandistas; foram se convertendo em estancieiros. Uma oligarquia crioula estava nascendo e, para ter um lugarzinho no mundo, já capitalista, deveria abandonar uma economia auto-suficiente e proceder a uma grande apropriação de terras. Não era suficiente recolher os couros, mercadoria de exportação, que aos milhares começaram a ser vendidos; chegava a um milhão de peças anuais no começo do século XIX. E o negócio se amplia com a charque das carnes.

Para expandir as fronteiras de suas propriedades e de seus negócios, essa oligarquia nascente tinha de eliminar os índios e também o gaúcho, esse personagem não enquadrado. Desde 1815, com toda clareza o governo estabelece que quem não tivesse “papeleta de conchavo”, ou seja, que não tem patrão vai preso ou se incorpora às fazendas, por um tempo indefinido. Acabou aquela coisa de andar cavalgando livremente, comendo e coureando vacas para viver. Os campos, as vacas, os cavalos e os alagados têm de ter proprietários.

O grande empreendimento de ampliar o domínio sobre a planície pampeana, desalojando os povos originários, começou com Juan Manuel Rosas em 1833 e culminou com Julio Roca, nos 80. Os procedimentos, a hipocrisia, o grau de brutalidade e as justificações não diferem em demasia dos processos de dominação territorial na América do Norte e em outras partes.

Os exércitos de ocupação se formavam com as levas de trabalhadores forçados. Uma ordem firmada por Rosas em 1831 estabelecia que cada partido devia enviar a cada 15 dias dois escolhidos entre os “homens prejudiciais por sua conduta e sem nenhuma ocupação”. (5)

Em "La Hidra de la revolución" [A Medusa da Revolução], o estupendo livro de Peter Linebaugh e Marcus Rediker (6), demonstra-se como o capitalismo universalizou os métodos de submissão. Também encontramos um paralelo nas formas também universais da resistência e da rebelião.

Em muito poucas décadas, a perversidade do capital exterminou os onas ou selk 'nam, que tinham levado uns 12 000 anos para chegar do estreito de Bering até a Ilha Grande da Terra do Fogo, onde pensaram que tinham encontrado seu lugar no mundo. Nos últimos anos do século XIX foram exterminados, de maneira planejada, por alguns recém chegados. Primeiro pagavam por uma orelha, mas quando os pagadores advertiram que alguns índios andavam sem orelhas, tinha de se levar toda a cabeça para receber o pagamento.

E esses genocídios, escamoteados ou banalizados no relato oficial da história argentina, não terminaram com a entrada no século XX.

Em 19 de julho de 1924, na localidade chaqueña [relativa a Chaco, no norte da Argentina] de Napalpi, tropas do exército e da polícia atacaram o acampamento El Aguará, onde quase um milhão de tobas, mocovies e campesinos brancos correntinos resistiam ao acosso dos latifundiários locais. O massacre no então território nacional do Chaco foi recentemente denunciada em 1987, na Fundação Juan B. Justo, durante uma coletiva de imprensa de que participaram o pesquisador José Picciuolo Valls e o historiador e jornalista Emilio J. Corbière.

Quando os tobas da região se deram conta da importância do cavalo, dominaram outras etnias chaqueñas e ofereceram resistência aos colonizadores, até que foram derrotados militarmente na segunda metade do século XIX. As melhores terras foram repartidas entre as classes dominantes, os triunfadores; os índios foram reduzidos às “reservas”. Qual foi o motivo da matança de 1924? Os índios começaram a trabalhar nas terras que lhes deixaram, numa economia de subsistência, negando-se a trabalhar para os latifundiários que cercaram seus antigos territórios. Segundo Picciulo, a resistência não teve uma característica religiosa de tipo “messiânico”. Os latifundiários asseguraram que essa economia de subsistência era um “foco” subversivo e convenceram o governador, Fernando Centeno, que era preciso exterminá-los. Assassinaram a todos e, como troféus de guerra, cortaram orelhas, testículos e pênis, que depois foram exibidos como mostra de patriotismo na localidade próxima a Quitilipi.

Os métodos primitivos do governador Centeno (delegado do governo radical de Marcelo T. de Alvear) e dos latifundiários chaqueños não tinham a paciência britânica nem a potência da revolução industrial nas costas, para cercar os campos e “persuadir” os índios a respeito da necessidade de trabalhar. Por exemplo, em 1785, o escritor britânico William Towsend fundava sua crítica ao sistema de ajuda aos pobres nos seguintes termos:

“A fome pode amansar até os animais mais ferozes e tornar decentes e famigerados, submissos e obedientes, até os mais perversos. Comumente o único que pode induzí-los e estimulá-los ao trabalho é a fome; mas...eis que nossas leis estabeleceram que eles nunca passarão fome. Mas temos de admitir também que, por outro lado, as leis dizem que poder-se-á obrigá-los a trabalhar; só que esse recurso à força legal acarreta muitas dificuldades, violência e escândalo: origina má vontade e não pode jamais fazer render um trabalho bom e aceitável. A forme, ao contrário, não só é uma questão pacífica, silenciosa, implacável; senão que, sendo o mais natural dos motivos que há para pôr-se a trabalhar, consegue produzir os mais vigorosos rendimentos, além de que, uma vez que os famintos se satisfaçam graças à liberdade alheia, resta neles uma semente perdurável e segura de boa vontade e gratidão” (7).

A classe dominante argentina, contudo, insiste em seus métodos. Um documentário que estreou no último Festival Internacional de Buenos Aires (BAFICI, 2010), "Octubre Pilagá, Relatos sobre el silencio", dirigido por Valeria Mapelman, resgata outro massacre similiar ao de Napalpi, ocorrido 23 anos depois desse, em pleno apogeu do mercado interno e da indústria substitutiva de exportações.

A algumas centenas de quilômetros ao norte de Napalpi, num lugar chamado Rincón Bomba, próximo a Las Lomitas, em Formosa, há sobreviventes que podem contar o que aconteceu. Em outubro de 1947, durante o primeiro governo Perón, uns 2000 pilagás haviam se reunido para escutar a um líder carismático. Antes, a comunidade tinha formulado uma série de demandas às autoridades locais. No filme, os sobreviventes contam os horrores vividos naquela tarde daquele 10 de outubro, em que começou o fuzilamento levado a cabo pela polícia, uma matança que não poupou nem velhos nem crianças, nem as mulheres se salvaram das violações que estão nos manuais dos escritos dos exércitos de ocupação de todos os tempos. Por vários dias continuaram buscando e matando a todos os que tinham escapado, com o propósito de não deixar um só testemunho. Disso se faz a transcendência desse documentário que põe luz sobre estes fatos até agora ocultos.

Por outro lado, a coincidência nas formas religiosas em que se expressam os protestos e a rebeldia, em Napalpi e dos pilagá, não é uma novidade. Como Linebaugh e Rediker o recordam muito bem, com dezenas de exemplos, as dezenas de rebeliões de todos os proscritos da terra, o que nos remete também ao incomparável relato de Euclides da Cunha, nos Sertões, sobre a guerra de Canudos.

(1) Ver Joaquín Miras, 2005; em Republicanismo Y Democracia, María Julia Bertomeu et all, (Buenos Aires, Miño y Dávila); também Antoni Domènech, El eclipse de la fraternidad: una visión republicana da tradición socialista (Barcelona, Crítica, 2004).

(2) Citado por Daniel Raventós, em Las condiciones materiales de la libertad (Barcelona, El Viejo Topo, 2007).

(3) Karl Marx, O Capital, Tomo I, cap. XXIV (Buenos Aires, Cartago, 1969).

(4) Marta Goldberg, “La población negra y mulata de la ciudad de Buenos Aires, 1810-1840” (Buenos Aires, Desarrollo Económico, Vol. 6 n.61, 1976).

(5) Citado por Luis Franco, De Rosas a Mitre (Buenos Aires, Astral, 1966).

(6) Peter Linebaugh e Marcus Rediker, La Hidra de la Revolución; Marineros, esclavos y campesinos en la historia oculta del Atlántico (Barcelona, Crítica, 2005).

(7) Citado por Edward H. Caar, La Nueva Sociedad (México, FCE, 1969).

Carlos Abel Suárez é membro do comitê de redação de SinPermiso

Tradução: Katarina Peixoto

Fotos: Trabalhadores rebeldes da Patagônia identificados pela polícia (Autor desconhecido)

Fonte/link: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16600 

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