Relatos de Terror: Acervo de Prestes

Documento encontrado no acervo de Prestes traz, além da lista de 233 torturadores, descrições de sequestros, falsos suicídios e ligações de grupos paramilitares clandestinos com milícia argentina.


O relatório da IV Reunião Anual do Comitê de Solidariedade aos Revolucionários do Brasil, preparado por presos políticos no início da década de 1970, conta com detalhes vários episódios ocorridos durante o regime militar naquele período. Além de identificarem 233 torturadores, há capítulos dedicados aos “desaparecidos políticos”, à “farsa dos suicídios” e ao “braço clandestino da repressão” – com direito a descrições minuciosas de sequestros e sessões de tortura.

 O documento começa contando casos de militantes que desapareceram misteriosamente - ressaltando que, em 1976, as táticas tinham mudado. Até então, a vítima chegava a comparecer aos órgãos de repressão antes de “desaparecer”; mas, a partir daquele ano, os militantes não seriam mais vistos “por outros presos, fazendo crer que tenham sido torturados até a morte em localidades de endereço ainda não conhecidos pela opinião pública nacional”.

 Em 1975, um jornalista, depois de ter sido preso e torturado, resolveu denunciar à imprensa os maus tratos que sofrera. Dias depois, recebeu uma carta, feita por um grupo autointitulado “braço clandestino da repressão”, contendo uma série de ameaças a ele e sua família, incluindo o aviso: “você é um, nós somos milhares”.

 A suspeita, segundo os autores do relatório, é de que tal grupo de extermínio teria ligações com a sanguinária Aliança Anticomunista Argentina (AAA). Outra vítima foi o advogado e professor Afonso Celso Nogueira Monteiro, ex-vereador de Niterói e ex-deputado estadual do Rio, cujo sequestro e tortura são contados com riqueza de detalhes.

Devido à repercussão de seu “desaparecimento”, Afonso acabou sendo libertado, e seu caso divulgado pelo comitê. Os autores do documento contam que venceram “obstáculos aparentemente intransponíveis” ao conseguirem se reunir pela quarta vez em quatro anos. A primeira reunião foi em fevereiro de 1973, quando elaboraram o primeiro relatório no qual constam 28 casos de presos políticos assassinados sob tortura, descrevendo os episódios “com minúcias”.

A segunda, no ano seguinte, contou com revelações de “elementos [...] vinculados profissionalmente à máquina militar de sustentação do regime” – que, inclusive, ajudaram a levantar os primeiros nomes de torturadores. Já o terceiro relatório, de 1975, fala das tentativas de camuflar ações repressivas do regime – a partir de sequestros, assassinatos e desaparecimento de cadáveres.

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