Entrudo: Folia colonial


Umas das primeiras festas populares do país, o entrudo passava longe de festejos 'caretas' do século XIX

Quem pensa que as folias populares no século XIX eram “caretas” nunca ouviu falar do entrudo. Trazido pelos portugueses, era uma brincadeira muito comum tanto nos salões como nas ruas, ultrapassando os limites da Corte do Rio de Janeiro e tornando-se frequente em vários cantos do país.

No carnaval, foliões divertiam-se atirando ou espremendo uns contra os outros limões de cera cheios de água de cheiro. Nem mesmo Sua Majestade Imperial D. Pedro II ficava de fora da brincadeira, conforme relato da sua entusiasmada participação num entrudo familiar, em 1882, pelo jornal Gazetinha.


Além das brincadeiras de salão, havia o entrudo popular, recheado de brincadeiras e “molhadeiras” que sempre suscitavam protestos e reclamações nos jornais. Adaptações dos limões de cheiro eram comercializadas ou arranjadas pelas ruas. Além de água de cheiro, usava-se água de chafarizes, café, groselha, tinta, lama e até mesmo urina.


A brincadeira foi sofrendo desqualificações por alguns setores da população, gerando repressões policiais e suscitando proibições legais. O pesquisador Leonardo Pereira lembra que o ataque ao entrudo era também o ataque a “uma velha ordem e a uma organização social caduca” (O Carnaval das Letras, Editora da Unicamp, 2004). O carnaval, em contrapartida, passa a insinuar-se como ícone da modernidade e de uma nova sociedade, desvencilhada dos valores coloniais portugueses.

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