Tudo começou na ilha de Robinson


Em 1719, o escritor Daniel Defoe criou o personagem Robinson Crusoé, viajante, que naufraga em uma ilha na Venezuela. Para o economista Stephen Hymer, a vida que se compõe então – caça, agricultura e a submissão do nativo – constitui uma perfeita alegoria que funda o modo de produção capitalista: a acumulação primitiva
por Stephen Hymer
O personagem solitário Robinson Crusoé frequentemente inspira os economistas por sua força, eficiência, inteligência e frugalidade; ele encarnaria a capacidade da espécie humana de dominar a natureza. A epopeia contada por Daniel Defoe é, no entanto, igualmente uma história de conquista, escravidão, exploração e assassinato. Em suma, da lei do mais forte. Que esse aspecto do romance seja geralmente ocultado não deveria nos surpreender, já que, como observava Karl Marx, “nos manuais sagrados da economia política, é o idílio [...] que sempre reinou”.1 Entre o Robinson Crusoé amado pelos economistas e o do livro há um abismo tão largo quanto entre a livre troca embelezada pelos manuais de economia e sua realidade factual.
A teoria liberal da livre troca repousa sobre o modelo do caçador e do pescador que trocam mutuamente os frutos de seu trabalho, numa ligação espontânea de igualdade, reciprocidade e liberdade. Mas o comércio internacional – ou inter-regional – acontece mais frequentemente numa relação de subordinação e sob condições que são tudo menos pacíficas; é o comércio entre a metrópole e o interior, o colonizador e o colonizado, o mestre e o empregado. Assim como o capital precisa do trabalho para prosperar, o comércio repousa sobre uma divisão bem-ordenada das funções: a uns, a concepção, o planejamento, a organização e o lucro; aos outros, o trabalho. É por ser intrinsecamente desigual em sua estrutura e na divisão de seus lucros que ele se instaura e se mantém pela violência, seja social (a pobreza), simbólica (a socialização obrigada) ou física (a guerra).
 Acumulação primitiva
O processo de acumulação capitalista nasce do encontro de duas categorias de pessoas: de um lado, os detentores do dinheiro, desejosos de aumentar seu capital comprando de outrem sua força de trabalho; de outro, os que têm apenas sua força de trabalho. Uma vez em andamento, o capitalismo mantém essa separação e a reproduz em uma escala cada vez mais vasta. Mas, antes de ficar de pé, ele precisa primeiro tomar forma e, então, passar por um período de acumulação primitiva.
Na última parte do primeiro volume de O capital, Marx analisa o processo histórico que conduziu à concentração dos meios de produção nas mãos do capital e seu controle sobre os trabalhadores. Ele mostra como o trabalho assalariado se propagou progressivamente, pela expropriação das populações agrícolas, e explica em parte a gênese do capitalismo industrial pela pilhagem da África, da Ásia e da América na “aurora rósea da era capitalista”.
Em Robinson Crusoé, Defoe ilustra esse acontecimento através do personagem de um inglês do século XVII que reúne capital graças ao suor daqueles que trabalham em sua plantação de cana-de-açúcar no Brasil, inicialmente, e em sua ilha caribenha, em seguida. Claro, o sistema estabelecido por Robinson não é uma economia de mercado tal como a que surgirá mais tarde na Inglaterra, mas uma economia agrícola e colonial como era praticada pelos primeiros capitalistas no mundo não europeu. Nesse sentido, a história de Robinson é também a do subdesenvolvimento primitivo.
Do personagem, guardamos o mito do sobrevivente engenhoso que só podia contar consigo mesmo para sobreviver, ao passo que, no romance, ele aparece, ao contrário, como estreitamente dependente de um grupo mais amplo. Mesmo depois do naufrágio, Robinson continua tributário da ajuda e da cooperação de outrem. Sua aventura sublinha então a natureza profundamente social de toda produção. Nada de paradoxal nisso: a produção do indivíduo isolado se vincula ao capitalismo tanto quanto a do grupo de trabalhadores socialmente organizados.
 Poder sobre o outro
No fim do livro, Robinson acumulou mais riquezas do que ele sonhara possuir antes do naufrágio. À fortuna de sua plantação brasileira, cuidadosamente mantida e valorizada em sua ausência, são acrescentados os recursos abundantes que lhe fornece o sistema econômico que desenvolveu em “sua” ilha. Claro, ele sofreu um longo período de solidão, mas este, retrospectivamente, não parece mais insuportável do que a alienação capitalista sofrida por todos – tanto para os que trabalham por uma remuneração minúscula quanto para os que, como Robinson, acumulam mais e mais, sem nunca conseguir parar.
Durante seus anos de solidão, e desafiando a teoria econômica dominante, Robinson explorou a ilha para seu uso pessoal, não para a troca. Descobriu que não sofria penúria alguma, razão pela qual o trabalho perde pouco a pouco qualquer valor a seus olhos. A paixão pela acumulação, força motriz do capitalismo, desaparece. Por não ter ninguém para administrar e dominar, a ganância de Robinson cessa. Para Marx, é a mais-valia sobre o trabalhador que faz a prosperidade do capitalismo. Basta retirar sua mão de obra que seu sistema de valores afunda imediatamente. Sem a caça desenfreada à mais-valia, a economia de subsistência de Robinson se basta. Os critérios de eficiência, desempenho e acumulação se fundem em um sistema de valores mais amplo.
Mas assim que Robinson sai da solidão, seu desejo de controle e acumulação ressurge. É apenas enquanto explora sua própria força de trabalho que ele para de medir as coisas nesses termos. O dinheiro e o capital são relações sociais fundadas sobre o poder. Independentemente do que sentem os capitalistas quando contemplam seus estoques, é o poder sobre o outro que eles contam e acumulam – certamente se dariam conta disso se, como Robinson, ficassem sozinhos.
Por meio de seu personagem, Defoenão coloca em cena apenas a aventura de um herói naufragado por acidente em uma ilha deserta, mas também uma alegoria sobre a vida dos homens no regime capitalista: uma vida feita de solidão, privação, incerteza e medo.

Interiorização da subordinação
O isolamento de Robinson se revela mais persistente em sua mente do que na realidade. Com efeito, cada vez que se encontra na presença de um visitante, reage com inquietação e suspeita. Sua desconfiança instintiva ilustra perfeitamente a alienação do individualismo possessivo, que se concretiza atualmente pela multiplicação de condomínios fechados tão acolhedores quanto bunkers.
Robinson possui uma espingarda, mas não é pela força que ele convence Sexta-Feira a se tornar produtivo. Para que o servidor aceite sua posição de inferioridade, o mestre deve aprender a domá-lo. Robinson dispõe, para isso, de uma vantagem determinante, já que salvou a vida do companheiro; no entanto, deve operar com prudência, seguindo um programa com várias etapas, para que o nativo interiorize plenamente as ligações de subordinação tecidas por seu mestre e se comporte como subalterno consentido e “livre”.
Do dia em que Robinson descobre uma pegada na areia até seu encontro com Sexta-Feira, quase dez anos se passam. Dez anos de medo, ansiedade e vigilância, durante os quais nosso herói reduz consideravelmente suas atividades produtivas e mal ousa pôr um pé para fora de sua fortaleza. Quando Sexta-Feira enfim aparece em sua vida, Robinson pode novamente utilizar seu gênio industrial, empreender, construir, acumular. A narrativa não precisa se o personagem principal mantém uma contabilidade, masnão deixa nenhuma dúvida de que o trabalho, para ele, reencontrou seu pleno valor: objetivos são fixados, ordens são dadas, resultados são esperados. Robinson designa a Sexta-Feira todo tipo de tarefas, explica-lhe como fazê-las, ensina-o, encoraja-o, repreende-o, explica novamente etc. Graças a seu servidor, ele se torna novamente um Homo economicus. Para Sexta-Feira, o trabalho; para Robinson, o capital, quer dizer, a inovação, a organização e a constituição de um império.
Ordem autorreprodutora
O período de acumulação primitiva se encerra. Robinson está, a partir de então, na chefia de uma grande propriedade, adquirida não graças à qualidade do trabalho realizado no passado, mas à sua posse afortunada de armas de fogo. Apesar de todo o sangue derramado pela constituição de seu capital, este não é objeto de nenhuma contestação. Sexta-Feira trabalhou duramente, nunca se entregou à preguiça e àdevassidão e, no entanto, no fim de sua labuta, não possui nada. Enquanto Robinson goza na ociosidade de uma fortuna que continua crescendo inexoravelmente, seu servidor permanece tão pobre quanto antes.
Pouco a pouco, outros personagens desembarcam na ilha. Com oportunismo, o mestre dos territórios tira vantagem de seu monopólio sobre os meios de produção insulares para ditar sua lei aos recém-chegados. Evidentemente, à medida que seu império se estende, os problemas que encontra se tornam mais espinhosos, mas Robinson não carece de recursos para vencê-los; usa cada vez mais o terror, a religião e a inviolabilidade das fronteiras ou do princípio de delegação da autoridade real para consolidar sua posição e exercer uma ordem autorreprodutora.
A alegoria de Robinson Crusoé nos ensina mais sobre a economia, sua história e sua teoria do que os contos infantis recitados pela maior parte dos economistas modernos. Sua obsessão pelo mercado e pelos preços permite sem dúvida avaliar o valor dos hábitos do herói em função do volume de canas-de-açúcar colhidas em sua plantação brasileira, mas ela não nos informa nada sobre a relação de Robinson e Sexta-Feira. Para compreender como o capital se constitui e se exerce, é preferível deixar a esfera barulhenta do mercado, onde tudo acontece na superfície, e mergulhar nas profundezas ocultas do mundo da empresa.
O capitalista pintado por Defoe naufraga em uma ilha deserta situada fora do mercado, mas não fora do mundo. Uma ilha onde o capital aparece em sua nudez original: imposto pela força e pela ilusão, aumentado graças ao trabalho de outrem. A certidão de nascimento do capital de Robinson não é tão sangrenta quanto a das grandes fortunas mercantis, mas sua natureza coercitiva não é menos espetacular.
BOX:
Ajudar os franceses a amar a empresa
O CNPF [Conselho Nacional do Patronato Francês] foi fundado em 1945 [...] depois de longas negociações iniciadas pelo Estado e em uma configuração política majoritariamente hostil ao patronato (durante os anos 1940-1944). [...] [Politicamente] o CNPF existiu durante muito tempo apenas para e sob a tutela da UIMM [União das Indústrias e Profissões da Metalurgia]. [...] No entanto, outras federações tentaram equilibrar essa preponderância: os setores têxtil, de construção civil e químico e, principalmente, o bancário e de seguros, que investem muito na organização desde os anos 1980. O peso dos serviços na entidade era, no entanto, muito baixo até sua transformação em Medef [Movimento das Empresas da França, em 1988]. [...] [Na época], a razão social, presente no nome coletivo, indicava uma mutação: tratava-se de um “movimento”, e não mais de um “conselho”. Aquilo que é representado não é mais o patronato (vocábulo banido dos estatutos) – termo utilizado depois das greves de 1936 e recolocado em pauta depois das de 1968 –, mas as empresas.
[...] Isso também se refletiu em uma doutrina de investimento, inicialmente produzida por Denis Kessler [primeiro vice-presidente do Medef] e François Ewald (filósofo, antigo assistente de Michel Foucault e diretor de pesquisa na FFSA [Federação Francesa das Empresas de Seguros]), que pretendiam escapar da luta de classes pensando em termos de sociedade de risco e promover a “sociedade civil” (empresas e parceiros sociais) contra o Estado. [...] A eleição [em 2005] de Laurence Parisot foi resultado de uma coalizão de empresas de serviços e de algumas federações industriais contra a UIMM [...]. De setembro de 2007 a abril de 2008, a presidente do Medef jogou todo o peso no registro da comunicação (Joana d’Arc contra o Politburo, patronato do século XXI contra os mestres das forjas, modernidade contra arcaísmo, organização da “sociedade civil” versusescritório de corrupção política) e deu início a um processo de reestruturação da organização que ela pretende, nonível da cúpula, fazer funcionar como uma empresa.
 Fonte: Jean-Claude Daumas (org.),Dictionnaire historique des patrons français(Dicionário histórico dos patrões franceses), Flammarion, Paris, 2010.

Stephen Hymer
Economista (1934 - 1974).


Ilustração: Orlando

Esse texto é uma versão abreviada de um artigo publicado pela Monthly Review em dezembro de 1971
1          Karl Marx, Le capital[O capital], Éditions Sociales, Paris, 1976.

Postagens mais visitadas