Chegou o Carnaval!

No final do século XIX, a folia se popularizou a partir da praça Onze, num movimento que daria origem a uma das maiores manifestações da cultura brasileira: as escolas de samba


Por Mauricio Barros de Castro em História Viva

A praça Onze, maior reduto do Carnaval popular carioca, se encontrava lotada naquela noite de domingo, mais precisamente no dia 8 de fevereiro de 1932. O motivo da concentração no lugar era um acontecimento que se tornaria histórico. O público que se aglomerava na praça vinha presenciar o primeiro desfile oficial das escolas de samba, competição organizada pelo jornal Mundo Sportivo, que pertencia ao célebre jornalista Mário Filho.

Além de ser irmão de Nelson Rodrigues, o “anjo pornográfico”, Mário Filho tornou famosa a mítica do Fla-Flu nas suas crônicas esportivas e escreveu, entre outros, o clássico O negro no futebol brasileiro. Devido à sua imensa importância para o esporte e a imprensa, o estádio do Maracanã acabaria levando o seu nome. Dedicado principalmente à cobertura das competições de futebol e remo, o Mundo Sportivo tinha um problema que se repetia todos os anos: a absoluta escassez de notícias após o fim dos campeonatos desses dois esportes. Diante disso, Mário Filho teve a ideia de organizar uma competição envolvendo a mais nova criação musical do Rio de Janeiro, as escolas de samba. Com isso, ele esperava trazer para as páginas do seu jornal, esvaziadas em fevereiro, uma novidade que começava a fazer sucesso no Carnaval carioca.

Dezenove escolas de samba concorreram no desfile criado pelo Mundo Sportivo, que durou dois dias (sábado e domingo). A campeã foi a Estação Primeira de Mangueira. A Deixa Falar, que, considerada a primeira escola de samba dera a partida a todo aquele movimento, não participou desse concurso, porque naquele ano preferiu se candidatar numa competição de ranchos, organizada pelo Jornal do Brasil. As consequências do erro estratégico foram desastrosas: o grupo foi desclassificado nas etapas iniciais. Com o resultado, acabou caindo na obscuridade e desaparecendo.

Em 1929, alguns anos antes do desfile organizado pelo Mundo Sportivo, acontecera o primeiro concurso entre escolas de samba. Foi organizado pelo sambista e pai de santo conhecido como Zé Espinguela (José Gomes da Costa). O evento teve como cenário o Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A diferença desta competição em relação à organizada pelo jornal de Mário Filho é que não houve desfile, apenas a apresentação de sambas. 

O vencedor foi Heitor dos Prazeres, que representou Oswaldo Cruz (futura Portela). Participaram também a Mangueira e o Estácio. O concurso organizado por Espinguela mostra que as escolas de samba já existiam alguns anos antes da competição do Mundo Sportivo. Além disso, as agremiações se comunicavam e realizavam trocas culturais. Organizadas como um movimento dos morros e subúrbios cariocas, as escolas tomaram de assalto a sociedade da época, dando início ao que seria conhecido como “o maior espetáculo da terra”.



Mauricio Barros de Castro é doutor em história social pela USP

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