Do canhão de mão ao fuzil de assalto

Los Angeles County Museum of Art
No conflito entre França e Prússia, os fuzis Dreyse armavam os prussianos, enquanto os franceses utilizavam o Chassepot
Por Vinicius Cavalcante em História Viva

Um grande estudioso da arte da guerra, Mao tsé-tung, dizia que as armas fazem menos diferença do que a capacidade dos combatentes que as utilizam. Realmente, de nada adianta pôr uma arma, ainda que sofisticada, nas mãos de um soldado que não esteja à altura de empregá-la. A história está repleta de exemplos de conflitos em que forças muito bem equipadas, porém com soldados de baixa qualificação, perderam combates para forças menores e menos aparelhadas, mas compostas por quadros mais bem treinados e motivados. Qualquer analista atento à crônica da criminalidade em nossos grandes centros já deve ter observado criminosos, sobretudo jovens, que ostentavam armamento militar moderno e sofisticado, sendo sobrepujados em operações em que as forças policiais não portavam armas à altura dos seus adversários do tráfico de drogas.

Apesar da validade da assertiva do líder chinês, contudo, ao analisar a trajetória de emprego dos fuzis, armamento militar por excelência, não faltam exemplos históricos de ocorrências em que a posse de melhores exemplares desse equipamento representou um papel preponderante na vitória. O uso da pólvora revolucionou a maneira de conduzir a guerra, e a adoção de armas de fogo individuais portáteis permitiu aos soldados atingir seus oponentes, com letalidade e segurança, a distâncias consideravelmente maiores do que com lanças, flechas, fundas e espadas. Ainda que o desfecho de muitos combates continuasse associado à luta de contato, cargas de baioneta e disparos à queima-roupa, o fuzil aumentou consideravelmente a potência individual do combatente.

O fuzil é uma arma de fogo que remonta ao século XIII. Surgiu sob a forma de um canhão de mão, cujo tubo, montado numa armação/cabo de madeira por meio de tirantes de couro ou metal, era fechado numa das extremidades (chamada de culatra) e em cuja parte de cima havia um orifício que continha um pavio. Pela boca do cano eram socados mais pólvora, um ou mais projéteis e um pequeno chumaço de estopa ou papel. Uma vez carregada, a arma era apontada para o alvo e acendia-se o pavio com uma mecha acesa ou carvão em brasa. O pavio aceso deflagrava a carga de pólvora confinada dentro do cano, produzindo o disparo. Essas primeiras armas de fogo, ainda que caras, imprecisas e de recarga morosa, exerceram um profundo impacto psicológico nos campos de batalha da Idade Média. Tais armas, ainda que não tivessem substituído totalmente as lanças, alabardas, machados, espadas e sabres, evoluíram lentamente ao longo dos cinco séculos seguintes.

Os sistemas de percussão com seus cães externos se aperfeiçoaram e se tornaram mecanicamente mais confiáveis, contudo as armas longas de cano liso e carregamento pela boca, pouco mudaram até o século XVII. A introdução de canos raiados (século XVI) aumentou a precisão dos fuzis carregados da forma tradicional. Cartuchos de munição de tecido fino e papelão foram experimentados como soluções para recarregamento rápido, e espoletas em cápsulas foram postas em produção por volta de 1820. Em meados de 1845, os cartuchos de munição metálicos (contendo estojo, espoleta, pólvora e projétil num só conjunto) começaram a aparecer na Europa e Estados Unidos, e os fuzis de carregamento pela culatra se estabeleceram definitivamente como armas muito mais rápidas e letais que seus congêneres de carregar pela boca.

Em 1848, o exército prussiano adotou o fuzil Dreyse, de carregamento rápido, pela culatra, cujo mecanismo utilizava uma agulha que percutia um cartucho de papel, causando o disparo da munição. Essas armas foram empregadas na guerra contra a Áustria em 1866. Tais fuzis podiam atirar cinco vezes mais rápido que as armas-padrão do exército austríaco, recarregadas pela boca. Em vez de concentrar suas forças, o general prussiano Helmuth Von Moltke as conservou divididas e móveis, lançando-as sobre seu inimigo de todos os lados. 

A superioridade da infantaria prussiana foi preponderante na vitória que levou a Áustria a perder 40 mil soldados, contra 9 mil baixas do lado dos prussianos. O resultado desse combate foi determinante para que as potências mundiais buscassem melhorar a dotação de armamento de suas forças. 

Vinicius Cavalcante, especialista em segurança, é diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança (ABSEG).

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