Médico, revolucionário e paleontólogo

James Parkinson lutou contra o governo francês e deu nome, 60 anos após sua morte, ao mal neurológico descrito por ele como "paralisia trepidante"


Por Vincent Mottez em História Viva

Filho de um farmacêutico, James Parkinson nasceu em 11 de abril de 1755, no bairro londrino de Hoxton Square. Ele estudou grego, latim, história natural e filosofia, disciplinas elementares na época, para seguir a carreira de medicina. Diplomado em 1784, ele começou a exercer a profissão de cirurgião ao lado de seu pai. Em 1783, ele se casou com Mary Dale, que lhe deu seis filhos. Parkinson era o tipo de médico que poderíamos qualificar como humanista. Sensível à aflição humana, ele se ocupava dos pobres da paróquia, tomava conta da enfermaria de uma fábrica e assumiu responsabilidades em um manicômio. 

Quando isso não era exatamente comum entre os médicos, ele se preocupava em melhorar as condições de vida dos doentes e em lhes devolver a dignidade, sem perder de vista as patologias “sociais” que afetam milhares de desfavorecidos. Quando a revolução eclode na França, ele se torna um intenso reformista, militando a favor da desobediência civil e tomando partido contra o governo de William Pitt, o jovem primeiro-ministro inglês. Participante de várias lutas sociais, ele redige cerca de 20 panfletos sob o pseudônimo de “Old Hubert”. A situação europeia é propícia a todas as agitações. A Inglaterra está em guerra contra a França, e círculos de inspiração jacobina semeiam a perturbação no reino de George III.

É nesse cenário que Parkinson radicaliza e ingressa em várias sociedades secretas, entre as quais a London Corresponding Society for Reform of Parliamentary Representation (Sociedade Londrina para a Reforma da Representação Parlamentar), o que lhe vale uma convocação diante do Conselho privado de Sua Majestade. O médico é interrogado como testemunha a respeito de um complô que visaria nada menos do que assassinar o rei. Temendo ser obrigado a confessar, ele se recusa a testemunhar sob juramento sobre sua possível participação na trama. 

O caso, no entanto, seria rapidamente esquecido e o suposto conspirador acabaria não sendo punido por nenhum crime. Provavelmente desanimado pela perspectiva pouco festiva da forca, ele renuncia a publicar outros escritos políticos, mas não deixa de manter relações com a franco-maçonaria. Parkinson toma, de fato, a melhor decisão: torna a se concentrar na medicina, em que estão seus melhores talentos. De 1800 a 1817, enquanto Napoleão tenta “matar os ingleses de fome” impondo o Bloqueio Continental e, depois, encontra a derrota definitiva em Waterloo, ele escreve várias pequenas obras especializadas, entre as quais uma importante publicação sobre a gota, em 1805, e um tratado sobre os riscos de apendicite e peritonite, em 1812.

Em 1817, ele publica sua obra mais influente: An essay on the shaking palsy (Ensaio sobre a paralisia trepidante). Sem grande repercussão no início, o livro e seu autor conheceriam uma fama mundial apenas 60 anos mais tarde, quando Jean-Martin Charcot chama essa doença neurológica crônica degenerativa, a mais frequente depois da de Alzheimer, de “mal de Parkinson”. Ao examinar três pacientes detalhadamente, Parkinson descreve os sintomas com uma justeza impressionante: “Tremor involuntário em certas partes do corpo, com diminuição da força muscular; tremores que não acontecem durante o movimento, mas produzidos quando tais partes são apoiadas. Tendência a inclinar o tronco para a frente e a alterar involuntariamente a marcha. Integridade dos sentidos e da inteligência”.

Durante os últimos anos de vida, suas pesquisas se afastam da medicina e se concentram na geologia e na paleontologia, paixões de juventude. A despeito do seu sabor científico, Parkinson sempre recusou a explicação evolucionista do desenvolvimento do planeta e das espécies. Defensor do criacionismo, ele atribui o momento da gênese da vida a uma força criadora ordenada. Juntando o útil ao agradável, esse amador esclarecido conduz seus filhos e seus amigos em excursão para recolher fósseis de plantas e animais. Ele descobre mesmo um feijão fóssil, batizado de Pandanacarpus parkinsonis – contribuição que ele, em seus últimos dias, acreditava ser a única capaz de garantir a posteridade de seu nome.

Vincent Mottez é jornalista científico

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