Provocações para os historiadores

O professor Mauro Cezar Coelho avalia como a obrigatoriedade do ensino da história indígena pode valorizar a diferença como um atributo da cidadania


Por Mauro Cezar Coelho

“Incorporar o índio ao saber histórico escolar não significa apenas promover alterações nas narrativas. Implica, isto sim, a apreensão da trajetória brasileira de uma perspectiva pautada por categorias como diversidade, pluralidade e diferença”

A produção historiográfica brasileira viveu alterações decisivas desde a sua constituição no século XIX, a partir da produção elaborada em torno do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Naquele primeiro momento, ela esteve comprometida com a conformação da nacionalidade, por meio da proposição de uma memória comum que integrasse os povos espalhados pelo imenso território. No século XX, a produção historiográfica tornou-se espaço de especialistas no trato com documentos e conceitos – momento de redimensionamento do saber histórico, com a emergência de questões, objetos, abordagens e problemas diversos. Seus vínculos com a formação da identidade nacional, no entanto, nunca se perderam.

As determinações presentes na Lei nº 11.645/2008 não alteram tal vinculação, mas a modificam de modo categórico. Ao tornar obrigatório o ensino da história e da cultura indígenas, ela promove uma inflexão importante na forma como o saber histórico escolar deve conceber, abordar e problematizar a memória histórica acerca de nossa formação como país e como nação. Ela provoca os historiadores, não importa onde atuem, a refletir sobre a forma como concebem institutos há muito consagrados nas narrativas sobre a construção do Brasil e dos brasileiros. Ela exige uma reavaliação das abordagens sobre os papéis diversos agentes naquilo que convencionamos chamar história do Brasil.

As narrativas sobre a nossa formação como país e como nação optaram pela Europa como paradigma e epicentro da história nacional e nossa herança mais importante. Nelas, os povos africanos e indígenas e os demais agentes não identificados com o branco assumiram o papel de coadjuvantes, cuja participação foi vista, com importantes exceções, de forma alegórica, não determinante. A legislação demanda a inclusão desses agentes do drama brasileiro sob nova perspectiva e lhes atribui um novo estatuto: a partir do reconhecimento de sua história, os situa como atores relevantes da conformação do país e da nação.

Nesse sentido, o ensino de história indígena é fundamental, sobretudo, para a conformação de outra relação com o passado, engendrada no ambiente escolar, e propõe uma cisão com a memória consagrada pela tradição, cristalizada no mito das “três raças”.

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Mauro Cezar Coelho é professor de história da UFPA e da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira

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